Em entrevista à BBC News Brasil, Sergio Denicoli, CEO da AP Exata, que monitora narrativas nas redes sociais, disse que desgaste de Flávio já é sentido nas redes sociais; menções negativas aumentaram, provavelmente derrubando a confiança no filho 01 do ex-presidente

O impacto eleitoral das trocas de mensagens entre o senador Flávio Bolsonaro (PL) e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, reveladas em reportagem do The Intercept Brasil, ainda será medido pelas pesquisas de intenção de votos, porém, nas redes sociais, o cenário já é de desgaste para o pré-candidato a ao Planalto indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), ao mesmo tempo em que a visibilidade de outros pré-candidatos da direita à Presidência se ampliou.
Segundo monitoramento realizado pela AP Exata Inteligência, empresa de ciência de dados que monitora narrativas nas redes, após as mensagens virem à tona, houve aumento das menções negativas a Flávio Bolsonaro e queda nos índices de confiança digital.
Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo), por outro lado, ganharam destaque online. Ambos se manifestaram sobre a relação revelada entre Flávio e Vorcaro.
Diante da repercussão do caso na quarta-feira (14), Flávio admitiu ter negociado investimentos com o banqueiro para custear as gravações de um filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
De acordo com uma reportagem do portal The Intercept Brasil, o repasse total acordado seria de US$ 24 milhões, o equivalente a cerca de R$ 134 milhões na época. Desse montante, R$ 61 milhões teriam sido de fato liberados entre fevereiro e maio de 2025.
Diante dos alegados atrasos para os pagamentos restantes, Flávio enviou mensagens para Vorcaro cobrando a liberação. Nelas, o senador trata Vorcaro com aparente proximidade, chamando-o de “irmão”.
Até as 18h de quinta-feira (14), 64,3% das menções sobre Flávio Bolsonaro monitoradas pela AP Exata nas redes tinham tom negativo — alta de 7 pontos percentuais desde a divulgação do caso.
O índice é o pior registrado pelo senador desde o início de sua pré-campanha presidencial e também o mais negativo entre os presidenciáveis monitorados pela empresa.
A AP Exata utiliza um modelo próprio de inteligência artificial para interpretar o contexto emocional das conversas envolvendo candidatos e temas políticos no X e em publicações no Instagram. A ferramenta mede sentimentos como confiança, tristeza, alegria e medo para identificar mudanças na percepção do eleitorado no ambiente digital.
Segundo o CEO da AP e cientista de dados, Sergio Denicoli, o sentimento de confiança é um dos indicadores mais relevantes na análise. Esse índice associado a Flávio também caiu. No início da noite de quinta, ele estava em 13,7%, representando um recuo de 2,8 pontos percentuais, o menor atualmente entre os pré-candidatos.
"A confiança está muito ligada à credibilidade, então o que esse monitoramento nos mostra é que ele perdeu credibilidade. Pode ser que recupere, porque as coisas são muito voláteis, mas de ontem para hoje isso não mudou e continua baixo", afirma Denicoli.
Denicoli pontua que Flávio já havia registrado oscilações negativas no índice de confiança em outros momentos do período analisado, como após a operação da Polícia Federal envolvendo o senador Ciro Nogueira (PP-PI), cotado para ser vice em sua chapa, mas nada comparável ao impacto provocado pela revelação das mensagens com Vorcaro.
Segundo a PF, Ciro Nogueira recebeu de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, pagamentos mensais recorrentes e outras vantagens em troca de favores.
"O Flávio tinha uma rejeição, mas nada tão acentuado. Aí você tem esse fator que aumenta o índice de rejeição. Hoje ele é o mais rejeitado nas redes. Mas é importante ressaltar que o que temos agora são picos, não é ainda uma tendência", diz Denicoli.
Na noite de quinta-feira, Flávio Bolsonaro concedeu entrevista à GloboNews e afirmou que não havia comentado antes sua relação com Vorcaro por causa de um contrato de confidencialidade ligado ao filme. Segundo o senador, a relação foi apenas contratual e não houve irregularidades.
Ele também negou que o dinheiro repassado por Vorcaro tenha sido usado para bancar despesas do seu irmão, o deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro (PL), que vive nos Estados Unidos desde o ano passado e responde a processo por tentar interferir na Justiça brasileira. A Polícia Federal investiga essa hipótese.
Em nota divulgada nas redes sociais, Eduardo disse que não recebeu dinheiro de um fundo de investimento ligado a Daniel Vorcaro e que o seu “status migratório não permitiria” o recebimento dos valores. Ela também chamou a hipótese de “tosca”.
Para Denicoli, a entrevista ajuda a mobilizar parte da base bolsonarista, mas mantém o senador em posição defensiva no ambiente digital.
"Quando você vai à GloboNews para se explicar, isso ainda te deixa numa posição desconfortável nessa disputa de narrativas, porque a oposição vai explorar tudo o que você disser."
Caiado e Zema ganham visibilidade
Enquanto Flávio enfrenta aumento da rejeição nas redes sociais, os pré-candidatos à Presidência Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) ganharam espaço nas conversas.

Caiado cresceu ao longo do dia e registrou alta de 9,6 pontos percentuais das menções ligadas ao debate monitorado pela AP Exata. O ex-governador de Goiás se manifestou sobre o episódio, usando um tom moderado, dizendo que não é “oportunista” e pregando a união da direita contra o presidente Lula e seu partido, o PT.
Já Zema apareceu com 24,3% das citações atrás apenas de Flávio Bolsonaro, mas com um crescimento dividido entre positivo e negativo, após uma manifestação crítica à Flávio Bolsonaro.

Em vídeo publicado nas redes sociais, Zema, que chegou a ser cogitado como vice do senador, afirmou que as mensagens trocadas entre o senador e Vorcaro "eram um tapa na cara dos brasileiros de bem" e classificou como “imperdoável” a cobrança feita ao banqueiro.
Denicoli pondera, que o avanço do mineiro veio acompanhado um desgaste dentro do campo bolsonarista. Segundo a AP Exata, as menções negativas ao ex-governador cresceram 4,1 pontos percentuais após as declarações de Zema sobre Flávio.
As críticas partiram principalmente de perfis ligados ao ex-presidente Jair Bolsonaro, que passaram a acusá-lo de oportunismo político.
Um deles foi Eduardo Bolsonaro. Nas redes sociais, Eduardo respondeu a uma publicação de Zema: "Não houve desvio de dinheiro, Lei Rouanet ou recursos públicos. Não seja tão baixo, tão vil, Romeu Zema."
Ainda assim, Denicoli avalia que Zema conseguiu romper a barreira de visibilidade imposta pela polarização política nas redes sociais.
"Esse crescimento de visibilidade do Zema e do Caiado mostra que o eleitor começa a olhar para o lado em uma crise como essa. Eles começam a aparecer como alternativas", afirma o cientista de dados.








