O presidente Donald Trump é apontado como peça considerável no tabuleiro geopolítico e eleitoral do Brasil, tanto para o bem, quanto para o mal, por isso, como principais concorrentes ao Palácio do Planalto nas eleições de outubro próximo, a reunião do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o encontro de Flávio Bolsonaro (PL) com o mandatário norte-americano são avaliados pela opinião pública e analistas políticos.
Apesar de ambos encontros terem acontecido na residência oficial do presidente norte-americano, os registros e os conteúdos das agendas têm diferença e transmitem mensagens distintas aos eleitores brasileiros
Lula (PT) foi recebido ainda do lado de fora da Casa Branca por Trump, em um tapete vermelho, e discutiu interesses do Brasil com os Estados Unidos com o estadunidense por mais de três horas, conteúdo confirmado pelo norte-americano, que ainda elogiou o brasileiro nas redes sociais e em entrevistas.

“Acabei de concluir minha reunião com Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente muito dinâmico do Brasil. Discutimos vários assuntos, incluindo comércio e, especificamente, tarifas. A reunião correu muito bem. Nossos representantes deverão se encontrar para discutir certos pontos-chave. Reuniões adicionais deverão acontecer nos próximos meses, quando necessárias", na tradução livre.

Do outro lado, na tarde desta terça-feira (26), Flávio Bolsonaro (PL) também esteve no Salão Oval, segundo fontes da comitiva, por apenas 10 minutos, para tirar uma foto ao lado do republicano e tentar extrair dele alguma declaração positiva a seu respeito, o que não aconteceu de nenhuma forma.
Trump não mencionou Flávio em nenhuma declaração pública, nem em postagem nas redes sociais.
Desconsiderando o elogio a Lula e o mais absoluto desprezo a Flávio Bolsonaro, mas observando apenas as fotos, o filho 01 do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) leva desvantagem outra vez, já que, enquanto Lula é recebido com tapete vermelho, ainda do lado de fora da Casa Branca, e depois é fotografado em um sorridente aperto de mãos, sob uma perspectiva de igualdade, Flávio Bolsonaro só tem dois registros do seu encontro com Trump, ambos de pé, no plano de fundo do cenário, com aspecto subserviente ao estadunidense, que se mostra sentado, apoiado em uma mesa suntuosa, numa posição de vantagem.

De acordo com o cientista político Valdir Pucci, a foto de Flávio com Trump transmite uma relação menos horizontal, já que o presidente americano aparece sentado enquanto o senador está em pé, o que pode sugerir hierarquia ou submissão.
“A imagem (de Flávio Bolsonaro) parece mais o registro de uma visita rápida do que de uma negociação entre líderes e, por isso, teria menos força simbólica do que a foto entre Lula e Trump, marcada por aperto de mãos e posição de igualdade”, explicou.
O analista político e especialista em marketing político Deividi Lira avalia que a foto entre Flávio e Trump foi construída para sinalizar proximidade política, mas não teria alcance fora da base bolsonarista. “A imagem, com Trump sentado e expressão protocolar, difere do padrão adotado em encontros entre chefes de Estado.”
PCC e CV como terroristas
Para os dois especialistas, a defesa de classificar o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas pode aproximar Flávio Bolsonaro à personalidades do Trumpismo e consolidar a segurança pública como uma das principais bandeiras da sua eventual campanha presidencial de Flávio em 2026.
Durante entrevista coletiva após o encontro, único registro sobre o conteúdo do encontro, sem nenhuma confirmação do lado estadunidense, o senador afirmou ter pedido a Trump que avalie a possibilidade de enquadrar as facções criminosas brasileiras como grupos terroristas, medida que, segundo ele, fortaleceria a cooperação internacional no combate ao crime organizado.
Segundo Pucci, a proposta dialoga diretamente com a base bolsonarista, porém o desafio do presidenciável seria ampliar o alcance da pauta para além dos apoiadores mais próximos. “O discurso reforça o eleitor que ele já possui. A dúvida é se isso consegue atingir outros segmentos da sociedade, principalmente os indecisos”.
Lira analisa que a defesa da classificação das facções como terroristas ajudam Flávio a construir a imagem de um candidato associado ao endurecimento do combate ao crime. “A segurança pública pode ser um mote para a campanha eleitoral. Ele vai utilizar essa reunião com Trump para reforçar a narrativa de que é um candidato preocupado com o tema”.
Apesar disso, ambos os especialistas avaliam que o discurso enfrenta limites. Além das dúvidas sobre efetividade, existe o risco de a aproximação com Trump ser interpretada por parte do eleitorado como uma subserviência aos Estados Unidos e o enfraquecimento da soberania brasileira.
Na avaliação dos analistas, medidas mais rígidas contra o crime organizado tendem a permanecer no centro da narrativa bolsonarista, mas o impacto eleitoral dependerá da capacidade de transformar propostas simbólicas em soluções concretas na percepção dos eleitores.
Para Pucci, a segurança pública deve ocupar espaço central na estratégia eleitoral da direita nos próximos anos.
“Com certeza, a segurança pública será um dos grandes motes da oposição nesta eleição. Hoje, parte dos brasileiros aponta corrupção e outra parte aponta segurança pública como os principais problemas do país, e a direita já possui um discurso consolidado nessa área”, afirmou.
Pesquisa Nexus/BTG divulgada nesta segunda-feira (25), mostrou que corrupção, saúde pública e segurança pública (violência e criminalidade) são considerados, respectivamente, os principais problemas do Brasil.
Apesar de avaliarem que a direita leva vantagem no debate sobre segurança, os especialistas consideram que as conversas entre Vorcaro e Flávio podem prejudicar o senador no tema central de momento, que é a corrupção. Para eles, o caso Banco Master passou a ser associado a esse debate.







