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Diferenças entre o sistema brasileiro, Pix, e o norte-americano, Zelle, sugerido por Eduardo Bolsonaro como opção ao nacional

Enquanto um é aberto, público, e gratuito, o outro app é privado

Fala de Eduardo Bolsonaro promove a comparação entre o sistema norte-americano Zelle, contra o brasileiro Pix / Foto: Reprodução (GCMais)

A grande repercussão nas redes sociais sobre as declarações de Eduardo Bolsonaro (PL-SP), dadas na quarta-feira, em entrevista à rádio TMC, onde ex-deputado teria, discretamente, sugerido o sistema de pagamentos norte-americano, Zelle, como opção ao brasileiro, Pix, numa eventual negociação do Brasil com os Estados Unidos para evitar a nova taxação do Governo Trump chamou a atenção para como o movimento global de digitalização das transações poderá reconfigurar esse segmento de mercado dos serviços financeiros.

No início da semana, após reuniões de Flávio e Eduardo Bolsonaro com autoridades estadunidenses, o Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) divulgou o relatório de conclusão da investigação administrativa sobre as práticas comerciais do Brasil, que propôs sobretaxa de 25% sobre produtos importados do Brasil, jogando o tema nos holofotes.

Embora o filho 02 do ex-presidente Jair Bolsonaro tenha citado o Zelle com uma alternativa ao Pix, para agradar os americanos em uma mesa de negociação, há uma série de diferenças entre eles. O primeiro é uma plataforma privada, controlada por uma empresa pertencente a alguns dos maiores bancos americanos, enquanto o sistema brasileiro é uma infraestrutura pública, criada pelo Banco Central (BC), à qual as instituições privadas se conectam e tem como vantagens a rapidez e a facilidade nas transações, gratuitas para pessoas físicas, se consolidando como um sucesso entre consumidores.

O norte-americano Zelle, restrito a cerca de 2,4 mil instituições que integram seu sistema próprio, disputa mercado com outras plataformas privadas, como Cash App, da Block, empresa do cofundador do antigo Twitter, Jack Dorsey, e com a Venmo, da PayPal, enquanto o brasileiro está disponível gratuitamente para qualquer entidade e já é usado por mais de 170 milhões de pessoas físicas e jurídicas.

Segundo Beny Fard, sócio da B8 Partners e especialista em negócios internacionais, as plataformas estadunidenses cumprem papéis semelhantes ao Pix, porque permitem transferências instantâneas entre pessoas, mas são estruturalmente diferentes, funcionando como redes privadas.

No caso do Zelle, o app está restrito a cerca de 2,4 mil instituições que integram seu sistema. As transferências podem levar alguns minutos para serem concluídas, segundo a empresa.

"O que incomoda Washington é que o Pix corrói a receita de empresas como Visa e Mastercard no Brasil. Em 2025, os Estados Unidos abriram uma investigação comercial contra o Brasil citando o Pix como prática desleal, e chegaram a propor tarifas adicionais sobre produtos brasileiros. O argumento americano é econômico: cada transação feita via Pix é uma transação que não passa pelos cartões americanos", disse Fard.

De acordo com Enrico Romanielo, sócio de direito concorrencial do Veirano Advogados, o Zelle é completamente diferente do Pix também em sua estrutura jurídica:

"O Zelle é mais limitado, funciona como uma camada de mensageria integrada a bancos participantes. O Pix foi criado e é amplamente regulamentado e fomentado pelo poder público, obrigatório para boa parte do mercado", declarou.

Elogio de Nobel

Na imprensa americana, o Zelle e seus concorrentes aparecem mais por causa de problemas do que pela popularidade e a inclusão financeira. No ano passado, o economista americano Paul Krugman, Nobel de Economia de 2008, elogiou o Pix. Em texto no Substack, disse que o Pix seria “uma versão pública do Zelle”.

Segundo o jornal The Wall Street Journal, o Zelle se popularizou entre venezuelanos. Embora o uso fora dos EUA não seja permitido, comerciantes da Venezuela utilizam contas em bancos americanos para fazer transações. Já o New York Times tem registrado casos de fraudes.

Em janeiro, a Cash App firmou acordo judicial, concordando em pagar US$ 255 milhões, para encerrar um processo movido pelo Escritório de Proteção do Consumidor Financeiro (CFPB, na sigla em inglês), agência do governo americano que supervisiona o varejo financeiro. Ainda na gestão do democrata Joe Biden, no fim de 2024, o CFPB processou o Zelle e três de seus sócios, Bank of America, JPMorgan Chase e Wells Fargo, por terem desviado US$ 800 milhões dos clientes.

Como no Brasil, as plataformas americanas têm sido alvo de golpes. Por aqui, o Pix tem o Mecanismo Especial de Devolução (MED), para acompanhar o “caminho do dinheiro” em ocorrências de golpes e fraudes, que inclui o “botão de contestação”. Nos EUA, Zelle, Casa App e Venmo têm se esquivado de tentativas de responsabilização por transferências indevidas.

Para Rocelo Lopes, chefe do braço de moedas digitais da fintech RezolveAi, o sistema brasileiro é mais transparente:

"O Zelle manda instantaneamente a transação, mas não tem chaves diferentes, não mostra o nome do banco. E, controlado por bancos privados, nem todo sistema financeiro americano faz parte. O Pix traz mais informação e proteção, antes mesmo de gerar a transferência. No site do BC, dá para ver quais chaves estão cadastradas", comentou.

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