Na produção, o baiano interpreta Marcelo, o protagonista do longa-metragem de Kleber Mendonça Filho

Wagner Moura é o dono da estatueta do Globo de Ouro 2026. Neste domingo (11), o baiano fez história ao levar a categoria de Melhor Ator em Drama, inédita para o cinema brasileiro. O reconhecimento em Hollywood veio pelo papel como o pesquisador Marcelo, o complexo protagonista de O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho.
A conquista veio sem colher de chá. Entre os concorrentes de Wagner Moura, quase não tinham novatos. A não ser pelo astro Michael B. Jordan, que concorreu pela primeira vez por Pecadores.
Os outros atores já tinham sido indicados ao menos uma vez ao Globo de Ouro, incluindo o próprio brasileiro. Em 2016, Wagner disputou como Melhor Ator em Série pelo trabalho como Pablo Escobar em Narcos, mas não levou a estatueta.
Desta vez, disputavam pela estatueta tinha nomes como Dwayne Johnson, por Coração de Lutador, Jeremy Allen White, pelo filme biográfico Springsteen: Salve-me do Desconhecido, Joel Edgerton, por Sonhos de Trem e Oscar Isaac, pelo esperado Frankenstein de Guillermo del Toro.
Em entrevista recente ao Hollywood Reporter, Wagner Moura tentou refletir sobre o que o faz diferente em meio à tantas estrelas da indústria cinematográfica.
“Eu nunca quis vir para cá para ‘tentar Hollywood’. Eu sempre me senti muito brasileiro. O que me diferencia, e talvez me torne especial no cinema, é justamente o fato de eu não ser daqui", pontuou.
“Sou fruto das leis de incentivo à cultura”
Opinativo e completamente à vontade em frente às câmeras. Foi assim que Wagner Moura apareceu pela primeira vez na televisão, mas não como ator. Nascido em Salvador, o baiano vivia na cidade de Rodelas quando precisou se mudar com os pais devido à construção de uma barragem que destruiria o município.
Perguntado por um repórter sobre o que achava da mudança, Wagner, aos 11 anos, foi sincero: "Não tenho vontade de mudar, não, mas agora que já mudei, é legal. Melhor que aqui, mas nem tudo. Lá é tudo estranho pra gente", disse, se referindo à cidade de Nova Rodelas.
Essa foi apenas uma das várias mudanças que o baiano precisou fazer ao longo da vida até chegar em seu atual destino: Hollywood.
Na adolescência, ele voltou à Salvador com a família. Seus pais não eram atores e não havia nenhuma expectativa dentro de casa para que Wagner entrasse na vida artística. O desejo veio mesmo no colégio Mendel, a convite de um colega que fazia aulas de teatro no grupo Pasmem, comandado pela professora Cristina Rodrigues.
Não demorou muito para que o menino que precisou se mudar tantas vezes ainda criança encontrasse sua “turma”. Ou melhor, seu trio. Ainda adolescente, Wagner conheceu dois de seus melhores amigos: Vladimir Brichta e Lázaro Ramos.
Em entrevista ao Podpah, o marido de Taís Araújo relembrou o encontro. "Wagner é meu amigo desde que eu tinha 16 anos. Ele era esquisitíssimo e o apelido dele era OVNI. Ele andava com um cabelão na frente do rosto, de roupa preta, muito esquisito mesmo. Eu tinha um pouco de medo dele e mal nos falávamos", contou.
Quem quebrou o gelo e resolveu puxar assunto foi Wagner. "Um dia ele foi ao teatro me ver, foi falar comigo no camarim e me pediu para ser amigo dele", contou. Junto com Vladimir Brichta, os três protagonizaram a histórica peça A Máquina, com texto de João Falcão.
Considerada a montagem que “revelou” os três talentos baianos para o resto do País, A Máquina estreou há 25 anos na cidade de Recife, em Pernambuco, que anos mais tarde viria a ser o cenário da trama de O Agente Secreto.
Em participação recente na 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo para promover o longa de Kleber Mendonça Filho, Wagner fez questão de sublinhar sua origem.
"Eu sou fruto das leis de incentivo à cultura. Eu existo porque na Bahia, nos anos 1990, houve leis que possibilitaram que atores do teatro baiano pudessem existir como artistas", afirmou.
Lá nos anos 1990, enquanto vivia sua primeira peça de sucesso e a repercussão positiva da mídia, Wagner também arranjava tempo para se dedicar ao curso de Jornalismo na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde se formou.
Em um vídeo curioso que circula nas redes sociais, Wagner aparece cantando o sucesso I Will Survive bem à vontade, nos intervalos da grade de aulas da UFBA.
Além de registros descontraídos, a passagem pelo curso de jornalismo também rendeu um amor ao artista: Sandra Delgado. Foi nos corredores da faculdade de comunicação que Wagner conheceu a atual esposa, mãe de seus três filhos: Bem, Salvador e José.
Colegas de curso, os dois só se olharam diferente, no entanto, durante uma noite de carnaval em Salvador. "Eu estava usando um vestido de bailarina e ela achou muito sexy", brincou em entrevista recente ao Los Angeles Times.
O namoro ficou sério mesmo quando o ator decidiu que era hora de se mudar para o Rio de Janeiro e apostar na carreira artística por lá. Em vez de deixar a amada para trás, ele a convidou: “Vamos?”
De galã de novela à policial truculento
Com o sucesso de A Máquina, Wagner Moura se mudou para o Rio de Janeiro e passou a emendar uma série de produções no cinema, como Abril Despedaçado, de Walter Salles, As Três Marias, Deus é Brasileiro, de Cacá Diegues e Carandiru, de Hector Babenco.
O “glamour” da tela da TV Globo só chegou mesmo em 2002, quando participou de episódios da série Carga Pesada como Pedrinho, o filho do caminhoneiro Bino, interpretado por Stênio Garcia. No ano seguinte, o baiano ainda emplacou no seriado humorístico Sexo Frágil, criado por Luís Fernando Veríssimo.
A estreia em novelas veio no horário das sete, com o galã Gustavo de A Lua Me Disse, de 2005. Já em 2007, Wagner assumiu seu papel mais icônico na emissora: Olavo Novaes. O vilão escrachado de Paraíso Tropical caiu nas graças do público graças ao romance pé de guerra com Bebel, interpretada por Camila Pitanga.
Uma dessas cenas quentes de embate entre o casal nada convencional foi resgatada nas redes sociais no último ano e transformou Wagner em edit do TikTok e queridinho da gen Z. "Você é a cachorra mais burra aqui desse calçadão", diz o personagem em meio à Avenida Atlântica, em Copacabana, em uma declaração desesperada à amada.
Após o fim da novela, Wagner decidiu se dedicar de vez ao cinema. O ator atuou no longa-metragem Ó Paí Ó (2007), ao lado do melhor amigo, Lázaro Ramos, além de Saneamento Básico: O filme, no mesmo ano.
A guinada ainda maior na carreira veio mesmo quando o baiano aceitou interpretar um certo capitão truculento em um longa-metragem sobre as forças policiais no Rio de Janeiro.
Ainda em 2007, Wagner estreia no cinema com Tropa de Elite, de José Padilha, no papel do protagonista Roberto Nascimento, um capitão controverso do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE). Apesar da repercussão estrondosa nas bilheterias, o filme também foi alvo de críticas por supostamente fazer apologia ao uso da força policial.
Ao podcast Awards Charter do The Hollywood Reporter nesta semana, Wagner saiu em defesa da trama inspirada no livro Elite da Tropa, de André Batista e Rodrigo Pimentel.
"Eu sou de esquerda, desde que nasci, e a esquerda no Brasil começou a acusar o filme de glorificar a ação da polícia. O que eu acho muito louco, porque ninguém diz que [Martin] Scorsese glorifica a máfia, ou acusa o [Francis] Coppola de glorificar Corleone."
Em 2010, Wagner voltou à cena como o capitão Nascimento para o segundo filme da franquia, Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora É Outro. A continuação manteve, por dez anos, o título de maior bilheteria da história do país e só foi desbancado por Minha Mãe É Uma Peça 3, de Paulo Gustavo.
Entre 2010 e 2015, Wagner também protagonizou outros sucessos do cinema brasileiro, como Homem do Futuro, ao lado de Alinne Moraes, VIPs, que conta a história de um estelionatário que enganou a mídia ao se passar pelo filho do dono da Gol, Romance, em par com Letícia Sabatella, e Praia do Futuro, de Karim Ainouz.
“Eu sou um ator brasileiro”
Em 2013, Wagner Moura chamou a atenção ao aparecer escalado para o elenco de um filme norte-americano. A trama de ficção científica Elysium marcou sua estreia em Hollywood em 2013 e contou com nomes como Matt Damon, Jodie Foster e Alice Braga.
No papel de Spider, o baiano se apresentou aos “gringos” pela primeira vez, e nunca mais parou de emendar produções estrangeiras.
Pouco depois, Wagner atendeu uma ligação de um velho amigo com um convite. José Padilha, diretor de Tropa de Elite, queria o ator como protagonista de sua próxima produção para a Netflix. Só tinha um problema: a série seria toda gravada em espanhol, idioma que ele não dominava.
O ‘porém’ foi só um desafio, e não um empecilho. Wagner disse ‘sim’ ao papel do famoso narcotraficante colombiano Pablo Escobar e estreou em Narcos em 2015. Apesar de ser duramente criticado pelo sotaque durante as cenas, a atuação rendeu a ele a indicação de Melhor Ator em Série de Drama ao Globo de Ouro de 2016.
Em entrevista ao programa Conversa com Bial, da Globo, em 2017, Wagner falou da experiência em atuar em espanhol e descreveu a sensação de pertencimento à comunidade latina após Narcos.
"O meu critério hoje para escolher personagem é o que aquilo vai acrescentar na minha vida. Pablo Escobar me deu um pertencimento tão grande, estudei o narcotráfico, o combate às drogas. Aprender a língua espanhola me deu pertencimento da cultura latina. Eu me senti pela primeira vez latino naquela série", explicou.
Em conversa recente com o W Magazine, Wagner contou que já recusou inúmeros papéis de “traficantes e durões” em Hollywood para não cair no esteriótipo latino.








