De uma estrutura pública improvisada no início de Valparaíso ao Congresso Nacional, deputada construiu uma trajetória que nenhum outro político do município conseguiu

Antes de chegar à Prefeitura de Valparaíso, à Assembleia Legislativa de Goiás, ao Governo do Estado e ao Congresso Nacional, Lêda Borges já fazia política quando a cidade ainda estava construindo sua própria identidade.
Foi nos primeiros anos de Valparaíso, à frente das secretarias municipais de Infraestrutura e de Educação, elaborando inclusive o hino da cidade, que começou a trajetória que quase três décadas depois a colocou entre as principais lideranças políticas de Goiás.
Para além da sequência de cargos, a crescente de Lêda Borges é, sobretudo, uma trajetória construída dentro do município que acabou ultrapassando suas fronteiras.
Lêda foi vereadora, secretária municipal, a primeira mulher eleita prefeita de Valparaíso, presidente da Agência Goiana de Desenvolvimento Regional, deputada estadual por dois mandatos, secretária de Estado e em 2022, tornou-se a primeira mulher do Entorno de Brasília eleita para o Congresso Nacional, com 51.346 votos.
Nenhuma outra liderança política surgida em Valparaíso percorreu algum caminho minimamente parecido.
Uma liderança construída frente a frente com o morador
Parte da força política de Lêda estaria justamente em uma característica cada vez mais rara, que é presença e o contato pessoal com os moradores, deixando o a política digital como um meio complementar.
Quando Valparaíso ainda era uma cidade muito menor, campanha significava caminhar pelos bairros, conversar com moradores, participar de reuniões e construir relações pessoais.
Em atos de campanha é cotidiano, muito comum, ver Lêda Borges acenando e cumprimentando pessoas após pessoas chamando-as pelo nome, lembrando de momentos.
Em 2004, por exemplo, Lêda percorria os bairros acompanhada de lideranças e distribuía pessoalmente rosas nos dias das mulheres, bombons na páscoa e calendários no início do ano.
Oposição e politicagem
Em 2012, já consolidada politicamente, Lêda Borges passou a dedicar parte de sua rotina à formação de novos candidatos e lideranças.
É aí que aparece uma das contradições da política de Valparaíso. Um desses políticos preferiu se emancipar da relação com a ‘madrinha’ se tornaram um adversário ferrenho.
Após ser levado à prefeitura em 2017 pelas mãos e força política de Lêda Borges, Pábio Mossoró (MDB) arranjou uma ruptura com a precursora e passou a nutrir uma rivalidade que patrocinou a manobra recente para prejudicar a reeleição daquela que o levou ao sucesso.
Na articulação para facilitar sua candidatura à Assembleia Legislativa de Goiás e impor dificuldades extras à rival, Pábio teria manobrado para tirar sua ex-vice-prefeita do caminho e colocá-la no de Lêda. Deputada estadual de mandato, Dra. Zeli Fritsche era forte candidata a reeleição na Alego e uma concorrente indesejada pelo emedebista.
O resultado da atuação de Mossoró foi que Zeli acabou filiada ao PSD, candidata a deputada federal, com poucas ou nenhuma chance de eleição, disputando os votos da cidade com Lêda Borges, não com ele.
Mas o voto ledista resistiu
Mesmo depois de deixar a Prefeitura de Valparaíso a 14 anos e nesse tempo enfrentar adversários que passaram a ocupar espaços de poder no município, Lêda manteve uma base eleitoral própria, construída ao longo de décadas.
São moradores que acompanharam a cidade em diferentes fases e que associam a trajetória da parlamentar à própria história de Valparaíso.
Esse vínculo ficou novamente evidente durante a campanha de 2026.
No lançamento de sua candidatura à reeleição recente, realizado em agosto, Lêda reuniu lideranças, candidatos e apoiadores em Valparaíso, reafirmando a cidade como sua principal base política.
Já na reta final da campanha, a candidata voltou às ruas do Céu Azul, maior bairro do município e onde tem forte intimidade com os moradores, para encerrar os atos do pleito eleitoral. Segundo a própria deputada, era também uma forma de agradecer a comunidade que historicamente lhe proporciona suas maiores votações.
O simbolismo é: a mulher que saiu de Valparaíso para conquistar espaço em Goiás e no Brasil voltou às ruas da cidade onde tudo começou.
Lêda Borges recebeu 69.417 votos neste domingo (4), cerca de 35% a mais que os 51.346 obtidos em 2022, ainda assim sem conseguir renovar seu mandato, em razão da fragmentação dos votos em sua maior base eleitoral e o desempenho do seu partido dentro da matemática da eleição proporcional.
De liderança municipal a nome além do estado
O salto de Lêda para a política estadual e nacional mudou também a dimensão de sua liderança.
A republicana foi a primeira deputada estadual de Valparaíso, primeira secretária de Estado oriunda do Entorno e antes chegou a comandar a Agência Goiana de Desenvolvimento Regional.
Depois, em 2022, veio o Congresso Nacional.
A eleição para deputada federal representou uma expansão do alcance da valparaisense. Pela primeira vez, uma mulher do Entorno chegava à Câmara dos Deputados.
Em Brasília, Lêda não ocupou apenas uma cadeira. Chegou, por exemplo, à presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher, um espaço de destaque dentro da Câmara Federal.
A liderança que havia começado em uma cidade ainda em formação passou, portanto, a participar de decisões nacionais.
O preço da política provinciana
O resultado das eleições de 2026 trouxe uma reflexão amarga para Valparaíso.
Lêda terminou a eleição com mais votos do que na primeira disputa para a Câmara, mas ficou fora do Congresso, resultado tem uma leitura que vai além da matemática eleitoral.
Valparaíso perdeu a representação que havia levado o nome do município ao centro das decisões nacionais, mesmo a cidade tendo votos suficientes para manter esse espaço.
A situação ficou ainda mais evidente quando o município terminou a eleição de 2026 sem representante próprio também na Câmara dos Deputados e na Assembleia Legislativa, enquanto Novo Gama conseguiu eleger Joscilene do Mangão para a Alego com quase 40 mil votos.
A política municipal, nesse cenário, retrocedeu 12 anos.
Lêda continua líder inconteste
O resultado eleitoral de 2026 não apaga a trajetória da Valparaisense. Pelo contrário. Os 69.417 votos recebidos, mesmo sem a renovação do mandato, mostram que a força eleitoral construída ao longo dos anos permanece em ascendência.
Políticos experientes do estado já dão como certa a presença de Lêda Borges em algum espaço importante do poder estadual ou federal.








