Ainda durante a gestão do então presidente Roberto Campos Neto à frente do Banco Central, a Polícia Federal chegou a questionar a autarquia sobre denúncias envolvendo o Banco Master, incluindo suspeitas relacionadas à estrutura societária e à exposição a riscos financeiros, porém a resposta foi que o órgão já tinha conhecimento dos fatos e que não havia necessidade de abertura de investigação específica.

O ofício foi encaminhado no contexto de apuração conduzida pela PF de uma denúncia estruturada levada previamente ao regulador por agentes do mercado financeiro. O material reunia indícios sobre o funcionamento interno do banco e levantava dúvidas sobre sua estrutura financeira e societária.
Entre os pontos apresentados estavam possíveis mecanismos de controle indireto da instituição e questionamentos sobre a destinação dos recursos captados, especialmente em operações envolvendo instrumentos financeiros mais complexos.
Na resposta, o Banco Central, sob a gestão do indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, informou que os elementos já haviam sido analisados internamente no âmbito da supervisão regular da instituição, sem a identificação de motivos para abertura de procedimento específico.
“Não foram identificados elementos novos que justificassem a instauração de procedimento investigativo específico”, afirmou o Banco Central em trecho da resposta à PF. "Os fatos relatados já eram de conhecimento desta Autarquia, tendo sido objeto de análise no âmbito das atividades de supervisão”, continuou o documento.
Sob Campos Neto, o Banco Central também sustentou que as informações estavam dentro do escopo do acompanhamento contínuo realizado sobre a instituição, mecanismo que, segundo o próprio regulador, permite monitorar a situação financeira e operacional dos bancos sem necessidade de medidas extraordinárias.
Denúncia detalha crescimento e riscos
A interpelação da PF se baseia em uma petição encaminhada ao Banco Central pela ESH Capital, gestora do mercado financeiro que compilou os indícios apresentados ao regulador.
O documento descreve uma trajetória de crescimento acelerado do Banco Master, com forte expansão na captação de recursos por meio de CDBs. Segundo a análise, o ritmo de crescimento teria superado o padrão observado em outras instituições financeiras.
A petição aponta ainda que parte relevante desses recursos estaria sendo direcionada para ativos estruturados, como fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs) e fundos de participações (FIPs), que apresentam maior complexidade e menor liquidez.
Em um dos trechos, os autores afirmam que “a concentração em ativos de maior risco e menor liquidez pode representar vulnerabilidade relevante em cenários adversos”.
Também foi levantada dúvidas sobre a precificação desses ativos e sobre a capacidade das demonstrações financeiras refletirem integralmente a situação patrimonial da instituição.
Outro ponto central da denúncia envolve a hipótese de controle indireto do banco por meio de estruturas financeiras que incluem fundos de investimento e veículos no exterior.
Segundo a petição, haveria um fluxo de aportes com múltiplas camadas de intermediação, capaz de resultar em influência relevante sobre a instituição sem a correspondente transparência formal.
Em um dos trechos, os autores destacam que “a estrutura identificada pode permitir influência relevante sem a correspondente transparência societária”.
A análise também menciona o uso de veículos offshore como parte desse arranjo, o que, segundo os autores, poderia dificultar a identificação de beneficiários finais.
Depoimento na CPI do Crime Organizado reforça questionamentos
O tema também chegou ao Congresso. No último dia 18, o fundador da ESH Capital, Vladimir Timerman, prestou depoimento na CPI do Crime Organizado e abordou a atuação do Banco Central durante a gestão de Roberto Campos Neto.
Em sua fala, ele afirmou que havia levado informações ao regulador ainda em 2023 e questionou a resposta dada à época.
“Muito se pergunta como que o banco inflou o balanço, né? E qual que é a responsabilidade de Roberto Campos Neto em cima disso? Eu fiz uma denúncia pro Banco Central em 2023, onde mencionava especificamente as operações com precatórios. Obviamente não foi exaustivo, mas se tivessem prestado atenção no que eu falei, teriam evitado. 29 dias depois da minha denúncia pro Banco Central, é promulgado aquele regulamento do Banco Central, o que impediu o banco de continuar fazendo o que estava fazendo com precatórios com títulos de crédito.”, afirmou Vladimir Timerman.
A declaração insere a denúncia em uma linha temporal mais ampla e sugere que os temas levantados já estavam em discussão antes de mudanças regulatórias adotadas pelo próprio Banco Central.
O que mostram os documentos
Os documentos indicam que as suspeitas foram formalmente levadas ao Banco Central, analisadas internamente e posteriormente passaram a ser objeto de questionamento por parte da Polícia Federal.
De um lado, a petição sustenta que os elementos apresentados justificariam uma apuração mais aprofundada. De outro, o Banco Central afirma que o acompanhamento regular da instituição foi considerado suficiente diante das informações disponíveis.
A troca de ofícios entre PF e BC revela, assim, um desencontro entre o nível de detalhamento da denúncia e a avaliação do regulador sobre a necessidade de investigação específica.











