Bombardeio acontece após semanas de tentativas frustradas de negociação diplomática e dezenas de mortes teriam sido registradas em escola primária no Irã, segundo agência de notícias estatal

Os Estados Unidos e Israel lançaram um ataque coordenado contra o Irã na manhã deste sábado (28/2). Horas depois, o presidente do EUA, Donald Trump, afirmou que o líder supremo do Irã, Ali Khamenei, havia sido morto nos bombardeios.
Não havia, até a publicação desta reportagem, um comentário oficial do Irã a respeito. Mais cedo, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, havia dito à NBC News que Khamenei estava “vivo”, pelo menos baseado nas informações que tinha.
De acordo com o Crescente Vermelho do Irã (equivalente à Cruz Vermelha no país), mais de 200 pessoas morreram nos ataques em todo o país.
Segundo a Agência de Notícias da República Islâmica, 85 pessoas morreram após bombardeios terem atingido uma escola primária feminina no condado de Minab, na província de Hormozgan, no sul do Irã. Outras 48 pessoas teriam se ferido, afirmou o governador Mohammad Radmehr.
A BBC não conseguiu verificar essa informação de forma independente, pois veículos de imprensa internacionais frequentemente têm seus vistos negados para o Irã, o que limita a capacidade de coletar informações sobre o que está acontecendo no país, que ainda enfrenta um bloqueio de internet.
Pouco após as 9h30 no horário local (3h10 em Brasília), a mídia iraniana relatou explosões na capital, Teerã. Imagens divulgadas mostravam fumaça sobre as praças Jomhouri e Hassan Abad.
Explosões também foram relatadas em várias outras cidades no país, incluindo Karaj, perto de Teerã, Isfahan e Qom, no centro do país, e Kermanshah, no oeste.
Vídeos que circulam nas redes sociais mostram pessoas correndo em pânico nos locais das explosões. O som de gritos e choro pode ser ouvido ao fundo.
Imagens de Teerã verificadas pela BBC mostram explosões a menos de 1 km do complexo onde vive o supremo líder do país, o aiatolá Ali Khamenei.
Imagens de satélites também mostraram danos consideráveis no complexo, incluindo edifícios queimados, destroços e uma coluna de fumaça.
Não há informação ainda se Khamenei estava no local no momento dos ataques.
Revide do Irã
Pela manhã, o Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã prometeu uma “resposta esmagadora”, afirmando que os ataques ocorreram “mais uma vez durante negociações” com Washington.
Teerã lançou mísseis contra o território israelense e aliados de Washington no Oriente Médio: Catar, Bahrein, Kuwait, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Jordania e Iraque foram alvos.
Segundo as Forças de Defesa de Israel, ataques retaliatórios foram lançados contra o território israelense. Instalações da Marinha americana no Bahrein também foram atingidas por mísseis, e explosões foram registradas em Doha, no Catar.
Os Emirados Árabes Unidos disseram que também foram atingidos pelo Irã e que os destroços, que caíram em uma área residencial em Abu Dhabi, teriam matado um civil de nacionalidade asiática cujo nome não foi divulgado.
A Força Aérea dos Estados Unidos opera a partir de uma base em Al Dhafra, ao sul de Abu Dhabi, juntamente com a Força Aérea dos Emirados Árabes Unidos.
Dubai, também parte dos Emirados Árabes Unidos, parece ter sido atingida. Uma explosão seguida de incêndio foi registrada em Palm Jumeirah, área de hotéis de luxo, deixando quatro pessoas feridas, segundo autoridades locais. A BBC verificou imagens confirmando que se deu em um hotel da zona.
Para o analista Jeremy Bowen, editor da BBC com ampla experiência na cobertura do Oriente Médio, Israel e Estados Unidos calcularam que o regime islâmico no Irã está vulnerável, lidando com uma grave crise econômica, as consequências da repressão brutal a manifestantes no início do ano e as defesas ainda enfraquecidas após os ataques sofridos em junho de 2025. Os presidentes americano e israelense concluíram que esta era uma oportunidade que não deveria ser desperdiçada.
A operação acontece após semanas de negociações entre Washington e Teerã na tentativa de fechar um acordo sobre o programa nuclear iraniano.
O Irã "tentou reconstruir seu programa nuclear e continua desenvolvendo mísseis de longo alcance que agora podem ameaçar nossos bons amigos e aliados na Europa, nossas tropas estacionadas no exterior, e que em breve poderiam atingir o território americano", afirmou Trump.
O presidente americano disse ainda que os Estados Unidos vão reduzir a indústria de mísseis do Irã a pó e “aniquilar” sua Marinha. O presidente instou os iranianos a usarem o momento para derrubar o regime clerical do país. "Quando terminarmos, tomem o poder. Será de vocês. Esta será provavelmente a única chance que terão por gerações", declarou.
O mandatário também disse aos membros das forças de segurança iranianas que receberiam “imunidade” se depusessem as armas. Caso contrário, “enfrentariam morte certa”.
O presidente israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou que "um regime terrorista assassino" não deve possuir armas nucleares "que lhe permitam ameaçar toda a humanidade". "Agradeço ao nosso grande amigo, o presidente Donald Trump, por sua liderança histórica", acrescentou.
O Ministério das Relações Exteriores do Irã afirmou que, embora o Irã estivesse ciente das “intenções” dos EUA e de Israel de realizar ataques, participou das negociações com Washington e que os ataques ocorreram "enquanto o Irã e os Estados Unidos estavam em meio a um processo diplomático".
A terceira rodada de negociações indiretas entre o Irã e os EUA foi realizada há dois dias, em 26 de fevereiro, em Genebra, sem avanços.
O Irã e os EUA também realizaram cinco rodadas que não obtiveram resultado em maio de 2025. Uma sexta rodada, que era prevista para junho passado, acabou cancelada após Israel lançar ataques contra o Irã, desencadeando um conflito de 12 dias no qual os EUA atingiram três importantes instalações nucleares iranianas.
Irã sem internet
Em nota, o Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã afirmou que o “inimigo” presumiu erroneamente que o povo iraniano "cederia às suas exigências mesquinhas por meio de ações tão covardes".
Também confirmou que as forças armadas iranianas já iniciaram medidas retaliatórias e prometeu "manter o povo informado continuamente".
O governo iraniano disse ainda que os ataques poderiam continuar em Teerã e outras cidades, instando os cidadãos a “manterem a calma” e se deslocarem para áreas mais seguras, sempre que possível, para evitar o perigo.
Também afirmou que o governo "preparou todas as necessidades da sociedade com antecedência" e que "não há preocupação com o fornecimento de bens essenciais", aconselhando as pessoas a evitarem centros comerciais.
Escolas e universidades permanecerão fechadas, os bancos continuarão prestando serviços e os órgãos governamentais vão operar com 50% da capacidade, informou o Conselho.
O Irã está agora sob um bloqueio de internet quase total, de acordo com a NetBlocks, uma agência de monitoramento da internet.
Esta não é a primeira vez em que a internet do país é interrompida. No mês passado, os serviços de telecomunicação foram cortados durante protestos em todo o país, que foram brutalmente reprimidos pelo governo.
Ataque divide opinião no Irã
No Irã, a reação aos ataques foi diversa, com cenas de pânico em algumas áreas e alívio em outras diante da perspectiva da queda do regime, segundo relatos da BBC Persian.
Por volta das 9h40, iranianos em várias cidades relataram ter ouvido fortes explosões. Vídeos que circulam nas redes sociais mostram pessoas correndo em pânico perto dos locais das explosões, com gritos e choro ao fundo.
Mas, ao mesmo tempo, parece haver uma sensação de alívio, até mesmo de celebração, entre aqueles que acreditam que a queda do regime só pode ocorrer por meio de intervenção militar. Muitos já previam um possível ataque dos Estados Unidos.
"Se eu morrer, não se esqueçam de que nós também existimos. Aqueles de nós que se opõem a qualquer ataque militar, aqueles de nós que se tornarão apenas um número nos relatórios de mortos", escreveu um iraniano nas redes sociais.
Outro escreveu: "Maldita seja a ditadura islâmica que causou esta guerra. Já sofremos três guerras."
Muitos iranianos que vivenciaram o que foi descrito como uma das repressões mais sangrentas contra civis na história moderna dizem agora acolher favoravelmente a mudança de regime, mesmo que ocorra por meio de intervenção militar e assassinato de seus líderes.
Outros, contudo, temem que os ataques aéreos por si só não sejam suficientes para derrubar o regime. Receiam que ele possa sobreviver e, em resposta, tornar-se ainda mais brutal contra o seu próprio povo.








